O Corcunda de Ibitinga

Data

21/08/2015

“Isto matará aquilo”. A frase do personagem Claude Frollo, mereceu ser título de um capítulo no clássico O Corcunda de Notre-Dame de Victor Hugo (1802–1885). O arquidiácono se referia, no ano de 1482, ao fato de que a prensa móvel de Gutenberg mataria a arquitetura. O argumento é simples: sendo tão fácil de se produzir livros, os artistas se dedicariam a eles ao invés da demorada e dispendiosa arquitetura. Infelizmente, mesmo que por linhas tortas, ele estava certo. A arquitetura não morreu — ainda bem! —, mas a pressa com a qual estamos acostumados e a sensação de autossuficiência que temos devido ao fácil acesso à informação são venenos que servem de combustível para que atropelemos a arte e a história.

“Cada fluxo do tempo superpõe sua camada no monumento, cada geração acrescenta a sua pedra. É como fazem os castores, é como fazem as abelhas, é como fazem os homens.”

O pensamento acima é compreensível, mas o ser humano é mais complexo do que castores e abelhas. Não queremos agir por instinto, dar a volta no ciclo e começar tudo outra vez. Queremos contar nossa história, deixar um legado, melhorar o futuro. Para tudo isso precisamos desacelerar e projetar. Se cada geração somente acrescentar sua pedra, ao final teremos uma parede empenada. A exemplo disso, recentemente aqui no Brasil, acompanhamos a polêmica da reforma de um chafariz datado de 1917 na cidade de Ibitinga-SP. Para voltar a usar as palavras de Victor Hugo:

“Porém, por mais bela que se conserve na velhice, é difícil não suspirar, não se indignar diante das degradações e inúmeras mutilações pelas quais simultaneamente o tempo e os homens fizeram o monumento passar. [...] É o velho carvalho que começa a secar pela copa e que, para piorar, é atacado, mordido e dilacerado por lagartas.”

Apesar disso, o chafariz continuará lá, sem a alma do seu projetista, como a catedral de Notre-Dame continua em Paris: sem o corcunda Quasímodo agitando os sinos em seu campanário.


(Todas as citações foram retiradas do livro O Corcunda de Notre-Dame de Victor Hugo, traduzido para o português por Jorge Bastos pela editora Zahar.)
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