Permitido fantasmas

Data

12/08/2016

...Não gosto das casas novas
Porque as casas novas não têm fantasmas
E, quando digo fantasmas, não quero dizer essas assombrações vulgares...”(1)

Os fantasmas que agradam ao poeta Mário Quintana não estão à espera da solução de sua morte mal resolvida para que possam partir para outra dimensão, como nos filmes de terror. Esses fantasmas habitam de forma inextirpável as casas velhas desde que nós, os humanos de carne e osso, os pusemos lá. Para entendê-los, vamos chamá-los de Genius Loci.

Genius Loci: os gênios — ou espíritos — dos lugares. Isso é o que sugere a expressão latina. Na mitologia romana esses fantasmas habitavam os lugares onde a vida humana acontecia. Ao mesmo tempo em que os genius loci habitavam esses lugares, eles os definiam. Por consequência, determinavam a maneira com que moradores e visitantes se relacionavam com os ambientes. De maneira prática, os genius loci justificariam o porquê de não nos sentirmos em casa quando estamos na casa do vizinho, por que podemos nos sentir oprimidos em grandes centros comerciais ou até por que podemos chorar ao conhecer as ruínas de um povo antigo.

Deixemos o sobrenatural de lado. Anteriormente foi mencionado que nós povoamos as casas velhas com genius loci. Como fazemos isso?

Quando habitamos um lugar, ou seja, quando podemos nos orientar e nos identificar com ele(2), isso quer dizer que interpretamos o espaço, portanto, traduzimos as experiências sensoriais da ambiência em significados. Todos os significados são ficções que criamos. Essas ficções fazem parte do imaginário e nos possibilitam assimilar o real, ou tudo o que está aí. É importante observar que o real não tem sentido nem necessidade de ter um. Quem necessita de sentido somos nós, e por isso criamos e recriamos a todo momento uma rede enorme de significados que, quando enxergados por nós em um ambiente como um padrão que transmite sensações, pode ser chamada de genius loci.

Embora todos nós criemos essas entidades ao interpretar os lugares com base na nossa experiência, esses fantasmas podem ser manipulados com maior destreza pelos projetistas. Quais são as características que deve ter o fantasma que habita um hospital? E o que habita um condomínio na praia? Através dos objetos, dos materiais, da organização dos espaços, etc., os projetistas promovem as condições para que um gênio “X” surja.

Embora essas características possam ser direcionadas, elas são imprevisíveis em sua totalidade. Uma pessoa que habita um determinado espaço pode decepar um braço do genius loci e fazer brotar de sua ferida um outro totalmente diferente. Se cada novo habitante fizer o mesmo, ao final de alguns anos, um espírito completamente novo passará a “assombrar” o lugar. Por essa razão a eficiência comunicativa de um ambiente é tão importante. Quanto mais forte o espírito do lugar, menores as chances de que um exército de Ghostbusters acabe com os propósitos de cada construção, cada rua, cada cidade, substituindo-os por outros, frios e insensíveis.


Referências:

1 – Arquitetura funcional, poema de Mário Quintana do livro Apontamentos de História Sobrenatural.

2 – Ideia desenvolvida por Norberg-Schulz no livro Genius Loci, Towards a Phenomenology of Architecture.

BÉLGICA